Aleinn Á Ný

Estranho pensar sobre isso. As pessoas vão embora sem se despedir. Vão para sempre, sem receio algum, simplesmente vão. Simplesmente. Sem olhar para trás. As mesmas pessoas que te faziam juras de eternidade no dia anterior.

Alguns meses atrás você esbanjava sorrisos sem o menor pudor, andava por aí com olhos brilhantes e vendo tudo lindo ou pelo menos suportável mesmo que fosse horrível. Você tinha em quê se segurar e não tinha uma gota de vergonha em ter essa muleta que te deixava em pé não importava o quê. Mas de um dia pro outro – e aqui falo, literalmente, de um dia pro outro -, vem uma rasteira que nem os deuses poderiam prever e quando você cai, totalmente desorientado, acaba sendo bem mais dolorido do que imaginava que seria.

O que vem então é um monte de feridas antigas sendo reabertas; e elas nunca doeram tanto. Feridas novas sendo criadas; e elas foram bem mais profundas do que você jamais achou que pudesse aguentar. O que vem é um “eu te amo” virando um soco na boca do estômago. Uma quase devoção se transformando inacreditavelmente em puro desprezo. Vem uma cuspida na cara e um abandono completo. Vem uma pergunta sem resposta – “o que eu fiz de errado?”

É estranho como as coisas mudam assim tão drasticamente. Tão rapidamente. Você se pega pensando sobre as microcoincidências que aconteceram para lhes unir e depois para lhes separar. Uma série quase infinita e de ocorrências imperceptíveis que os levaram a ter aquela primeira conversa.

Você nasce, arranca alguns pedaços de joelho jogando bola na rua, observa o mundo girar durante umas duas décadas, ganha um computador novo de sua mãe, cria uma nova conta em uma rede social mesmo que você odeie perder tempo com redes sociais, mesmo que você odeie ficar em casa em frente a uma tela de computador. Ali, uns dias depois, você conhece o amor da tua vida. Você se pega fazendo coisas que nunca se imaginou fazendo ou sentindo coisas que nunca soube que poderiam ser sentidas. E você passa um ano inteiro no topo do mundo. Mas se distraiu por um minuto, deu um passo a mais quando deveria parar e caiu do penhasco.

E o que veio depois do amor foi a queda. E se resume em você eternamente preso naqueles segundos que te separam do instante em que caiu até o instante em que se esborracha. O que vem depois do amor é que você ainda ama, sem razão e nem mesmo algo para amar. O que vem é esse vazio e essas convulsões do Nada se contorcendo enquanto tenta ser ou encontrar algo novo.

E você que nunca teve crenças busca algo em que acreditar, simplesmente porque acreditar somente em ti não é mais possível – você não existe mais. Todo o potencial se esgotou. E você pede demissão, você larga a faculdade, você sai da casa dos pais, você não atende mais as ligações dos amigos. Você se perde enquanto tenta se reencontrar – e como encontrar o que não existe? Então você nasce outra vez. Você explode o muro e se expõe novamente. Você, agora, sem uns pedaços de joelho, de coração, de alma. Contando os microacontecimentos que te levarão a algo melhor. Torcendo, na verdade, porque todas as tuas certezas viraram escombros de um desastre natural. Acreditando que é só viver a nova vida… Só não é tão simples quanto parece.

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