Demência

que insanidade viver são
quando tua lucidez virou somente existência
triste ser normal
somente mais um olhando a vida passar

buscar o correto
deixando de experimentar o que poderia te pertencer
deixando de lado a vontade
perdendo-se em desencontros tediosos

sendo pequeno
sorrindo amarelo
fingindo felicidade

amar a loucura é nossa salvação
correndo riscos e aceitando porradas
insensatez de verdade é ser sensato

Anúncios
Publicado em Poemas | Deixe um comentário

Vida real

perguntaram o que houve
mas não queriam ouvir a resposta
pensaram que seria só mais uma vez o piloto automático
mas deram de cara com a realidade turbulenta

acontece que as pessoas se assustam
também nunca estou preparado, somos todos fracos
acontece que nossa única opção verdadeira é a mais dolorida
obviamente não me satisfaz

difícil seguir sempre pelo mais fácil
nossa dependência aflora cada vez mais
continuamos precisando de reconhecimento
continuo buscando algum ideal

sofremos com nossa idolatria pelo poder
acontece que a vida não espera
não consigo acompanhar
estamos estáticos

Publicado em Poemas | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Sobre a descrença

Ei, Chico, as pessoas mentem! Elas te enganam, te fazem sentir especial e te ignoram quando não precisam mais de ti, elas te usam.

Triste, amigo, ter que descobrir essas coisas da pior forma possível. Você acredita, você sente, você se entrega por completo. Você ama, você sofre, você se perde. E as pessoas continuam mentindo, continuam te fazendo acreditar que você é de certa forma importante, continuam virando o rosto e indo embora.

Sabe, Chico, acho que já acreditei demais e acabei me tornando isso que sou hoje. Tenho medo, tenho preguiça de novos relacionamentos. Não quero mais. Perdeu a graça. Perdeu o sentido. Evito contato, evito conversas, evito sentir. Mas o que dói, Chico, é saber que não sou tão bom assim em ficar sozinho. Minha essência é o amor, é me entregar, é tentar o máximo possível. Como as pessoas são cruéis, amigo. Elas fazem tudo que podem para frustrar teus sonhos e convicções. Que mal há em querer acreditar que o impossível pode ser alcançado? Que mal há em querer, deliberadamente, tentar o caminho mais difícil? Às vezes não é o final que importa, é o que fizemos para chegar ali.

Mas, Chico, eles conseguiram. Me dobraram. Não fui forte o suficiente; eu tentei, amigo, mas talvez nunca tenha chegado nem ao menos perto. Eles conseguiram! Parei de acreditar. Morreu toda a essência. Planos não serão mais traçados, nada mais será esperado, todas as decepções ficarão para trás. Comigo seguirão somente as cicatrizes, elas são eternas.

Eles conseguiram, Chico.
Desculpa, amigo.

Publicado em Espinhos | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Misericórdia

Bem, Ninguém, as pessoas têm formas muito diferentes de enxergar a mesma situação; o que é de certa forma engraçado. Continuo segurando firme um sentimento que formiga dentro do peito e adormece tudo que tenho para oferecer a outro alguém. Talvez seja idiotice querer guardar o inexistente…

Mas, sabe, Ninguém, o vazio corrói de vez em quando. Disseram que passaria e realmente me enganaram. Se bem que ainda há a possibilidade de passar enquanto houver alguma espécie de movimento nesses pulmões sedentos por suspiros em extinção.

Vem cá, Ninguém, me diz de onde veio tudo isso… Mas, por favor, me explica direito dessa vez, eu preciso mesmo entender. Me diz pra onde foi tudo isso também. Mas, deus!, diz do jeito mais claro que puder, porque, de verdade, já cansei de analogias, metáforas e distrações que não levam a lugar algum. Não fala como se tudo fosse abstrato, já sofri muito como sonhador, talvez seja o momento de um realismo jogado na cara.

O que é o coração, Ninguém? O que é o amor? Me mostra, não sei mais onde procurar e ser sempre o que procura no pique esconde não é tão divertido assim depois de um tempo.

Tô pedindo socorro, Ninguém.
Acaba com essa angústia, vai!

Publicado em Espinhos | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sobre o aprisionamento

Ei, Chico, você já amou alguém muito além do que tua imaginação poderia conceber?

Sabe, amigo, ter a certeza de que nunca mais sentirei isso me entristece. Ela foi minha maior dádiva, mas hoje, sem dúvida alguma, é minha maior maldição.

Chico, se pudesse, você escolheria nunca tê-la conhecido? Essa é a primeira vez que me passa pela cabeça essa possibilidade. Realmente gostaria de me libertar.

Não sei bem, talvez eu até possa, mas tirar essas correntes poderia me fazer deixar para trás o que mais me marcou durante toda essa existência inerte. E se eu realmente esquecer? Sinto medo, Chico.

Fecho os olhos e tento fugir, você sabe, Chico, você é meu confidente. Você vê o que acontece aqui dentro. É isso o que te dá brilho, amigo. Como é ruim essa sensação de impotência. Chico, se pudesse, você faria essa tristeza ir embora? Mesmo sabendo que você sumiria junto? Eu sei que disso você não tem medo; você sabe que ela não tem fim.

Mas dói, Chico, dói muito sentir sempre esse mesmo nó na garganta – e ele nunca some. Dói sentir essa pulsação estranha no peito. Dói perder o ar a cada imagem e dói ainda mais não ser forte o suficiente para clicar no “deletar”.

Hoje tá doendo mais que o de costume, Chico.
Hoje tô mais sozinho que o normal.
Hoje tô mais longe.
Hoje não faço ideia de onde ela esteja.

Publicado em Espinhos | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sobre o desconhecido

Hey!
Você não sabe, não é? Você não faz ideia.

Existe alguém aqui, ele está tão perto. Você não vê. Ele te quer. Ele quer um toque diferente. O calor não está nem um pouco reconfortante, definitivamente não do jeito que um dia ele imaginou que seria. Não, você não vê. Você não sente. Você percebe isso tudo de uma forma completamente diferente. Somos tão desgraçados em meio à essa realidade tão indubitavelmente paralela, onde o dois pode a qualquer momento se tornar três.

Olhe de novo. Mais uma vez! Vai, se esforça só mais um pouco, você pode encontrar a ligação, a linha que falta aqui. Ele está lá, bem em sua frente. Ah, você ainda não vê!

Então ele vai se perdendo cada vez mais em meio ao medo que você transpira. É aterrorizante, e você ainda não faz a menor ideia, vocês vieram de uma realidade totalmente oposta. Você nunca entenderá. Ele se esconde.

O medo aumenta. Aumenta. Aumenta!

Enquanto você segue buscando algo maior – ele pode oferecer. É uma verdadeira maldição nunca ser o suficiente. Ele tem tanto medo. Mal sabe ele, as fronteiras foram criadas para frustrar nossa realidade absurda e criatividade cínica. Mal sabe ele, foi você quem delimitou cada maldito centímetro que te impede de ter o que procura e, pior ainda, o impede de tentar ser melhor do que acha que é. Você o prendeu na mediocridade, você o subestimou em todas as possíveis ocasiões. Ele se tornou o quase. O quase amor, o quase companheiro, o quase toque. E ele continua ali, paralisado, preso, distante. E ele quer ser, quer tentar, quer sentir.

Por que você fez isso consigo? Por que fez isso com ele?
Triste sina a de ser quase.
Você o matou. Pegue algum bom champanhe.
Você não faz a menor ideia!

Adeus.

Publicado em Espinhos | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Sob a armadura

Quando fica triste ele se isola; engraçado como é estranhamente natural esse mecanismo. O mundo parece perder a cor, nenhuma pessoa, nenhum lugar, nenhuma atividade parece ter a mesma graça.

Quando fica triste ele escreve; talvez até seja legal essa poesia pra quem vê de fora, mas ninguém sabe o quanto dói escorrer melancolia pelos dedos.

Quando fica triste ele bebe; meio idiota essa necessidade, mas é que às vezes é o único jeito de fugir dele mesmo, e, todos sabem, ele não é muito fã de sua personalidade angustiante.

Quando fica triste ele não sabe o que fazer; o calor parece mais quente, o frio parece mais frio, a solidão parece mais inerte que nunca.

E ele grita silenciosamente, ele chora por dentro, ele busca sem êxito – claro, ele não sabe exatamente o que procura, de vez em quando ele nem sequer sabe dizer por que está triste, ele só está, ele só é. Ninguém entende. Nem ele entende.

Como é triste a tristeza.
Como é triste ser ele.
Como ele consegue ser tão triste?

Publicado em Espinhos | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário